Brincar de Viver (artigo de Regina M. Azevedo na Revista Planeta de maio de 1994)

Criado em 1976 na comunidade de Findhorn, na Escócia, o Jogo da Transformação torna a busca do crescimento espiritual uma agradável e surpreendente brincadeira entre amigos, cujo objetivo principal é vencer as dificuldades individuais. Usado para a integração de elementos de uma empresa e complemento de vários tipos de terapia, o jogo deverá ser lançado entre os meses de maio e junho (de 1994).

Há momentos na vida em que todos os caminhos parecem estar emaranhados; olhamos à nossa volta e não encontramos saída; fazemos escolhas, mas estas parecem nos conduzir sempre ao mesmo lugar. Para aqueles que já abandonaram a acomodação de se deixar levar pelo carma ou destino, os que tomam a si 100% da responsabilidade sobre suas vidas, a angústia pode ser maior. Dependendo, porém, do arsenal de informações disponível, a jornada pode rumar para o bom caminho com menores chances de erros e um mínimo de obstáculos. Para isso, é necessário saber ouvir a voz interior, manter-se inteiro, integrando nossos níveis físico, emocional, mental e espiritual à maneira holística para que possamos seguir adiante. Simples a fórmula? Nem tanto.

Quando as coisas vão mal, simbolicamente estamos do lado de baixo da Roda da Fortuna (o arcano 10 do Tarô, expresso por uma roda sempre em movimento, representando que, se tudo vai mal, ótimo, isso passa; mas, se tudo vai bem, cuidado, porque o que está em cima num dado momento tende a descer…). Para a subida é necessário empreender mais esforços, maior grau de persistência, uma certa dose saudável de obstinação. A etapa se torna mais fácil se temos uma meta clara a atingir e uma luz a iluminar nosso caminho; chamam a essa clareza inspiração, insight, sinal, Deus, não importa o nome. O importante é que ela esteja ali a nos orientar.

Para alguns a vida é dura, difícil, sacrificada, uma luta. Para outros é uma aventura, um desafio, um jogo. Compartilhamos mais do segundo time: a vida é emocionante, ganha-se quando se perde, já que erro é oportunidade para aprendizado. Apenas chorar sobre o leite derramado não é solução: mudando-se a ação é que mudamos o resultado. Para essas pessoas, conscientes de que é possível escolher o nível de qualidade de vida que almejam para si, é que pode ser útil o interessante trabalho criado em 1976, na comunidade de Findhorn, por Joy Drake, Kathy Tyler e Mary Inglis, o dinâmico e esclarecedor Jogo da Transformação.

Estivemos com Mary Inglis em sua recente visita ao Brasil, cujo objetivo principal era formar facilitadores que pudessem orientar, passo a passo, as pessoas dispostas a jogar. Nós próprias pudemos participar de uma sessão, avaliando suas surpreendentes e sincronizadas revelações. Segundo Mary, as pessoas que procuram Findhorn geralmente estão preocupadas com seu crescimento espiritual e pessoal. O jogo foi criado com esse intuito, a partir de anotações que os próprios membros da comunidade colecionaram, observando situações que os impulsionavam ou atravancavam na vida.

A ideia de comercializar o Jogo da Transformação surgiu para atender aos pedidos dos frequentadores de Findhorn, os quais, após concluir sua estada, apreciavam tanto os esclarecimentos obtidos através da prática que desejavam compartilhar essa experiência com pessoas fora da comunidade. Da versão original ao modelo simplificado de hoje, passaram-se 11 anos.

O aspecto lúdico torna a brincadeira mais emocionante; o formato – um jogo de tabuleiro pelo qual cada jogador caminha representado por uma pedrinha, mediante os pontos obtidos através do lançamento de um dado – incita a curiosidade. Os participantes não têm que vencer uns aos outros, mas cada qual as próprias dificuldades; dentro de um princípio holístico, não há perdedor, todos saem ganhadores.

A estrutura do Jogo da Transformação é bem simples: sobre o tabuleiro, em locais predeterminados, são dispostos quatro baralhos: o dos Anjos, o dos Insights, o dos Revezes e o dos Feedbacks Universais. O caminho a ser percorrido por cada participante se assemelha a três pétalas de lótus e é contínuo, para que cada um possa preencher as cartelas correspondentes aos quatro níveis – físico, emocional, mental e espiritual – passando quantas vezes for necessário pelas experiências representadas nas casas, cada uma delas com um símbolo diferente.

A dinâmica sugere que cada jogador proponha um objetivo pessoal claramente identificado no início do jogo; todas as dicas canalizadas através das cartas de qualquer um dos baralhos estarão voltadas à realização desse objetivo. No “envelope do inconsciente”, cada jogador coloca cartas dos baralhos dos Anjos, dos Insights e dos Reveses, a quantidade sendo indicada pelo lançamento do dado. Ao longo do jogo, essas pistas vão sendo desvendadas.

Apesar de cada participante realizar seu caminho da vida individualmente, há uma integração entre eles em algumas jogadas: quando alguém cai na casa que representa um “milagre”, por exemplo, é possível realizar tarefas ou distribuir “graças” que favorecem também os outros jogadores.

A primeira cartela a ser preenchida é a do nível físico; à medida que se percorre a trilha no tabuleiro, vai se adquirindo “Consciências” (expressas através de palavras como “imaginação”, “ternura”, “unidade”, “criatividade” etc, por meio das cartas de Insights (que trazem afirmações do tipo”Minha personalidade está radiante de alegria”, ou “Uma crise inesperada oferece a oportunidade para que você reforce sua força e se poder interiores”, mais um certo número de Consciências). Seis Consciências e um Serviço, ou três cartas dos Anjos, permitem ao jogador passar do nível físico para o emocional; e assim sucessivamente, até preencher as cartelas dos níveis mental e espiritual.

Mary nos conta que as primeiras experiências com o Jogo da Transformação denotavam o quanto cada participante ia se tornando consciente de seu próprio caminho; “andar no jogo era como andar na própria vida…”

A simbologia de cada baralho é peculiar, embora complemente as mensagens contidas nos outros maços de cartas. Os Anjos representam predicados espirituais da vida, representados por palavras como”força”, “alegria”, “saúde”, “aventura”; no contexto do jogo, geralmente simbolizam as qualidades que precisam ser desenvolvidas pelo jogador. Os Insights enfatizam comportamentos e situações, e nos ajudam a ver as coisas com maior clareza, tanto que cada carta brinda o participante com um certo número de “Consciências”. Os Reveses apontam as coisas dolorosas, os desafios, as dificuldades criadas pelo próprio jogador, consciente ou inconscientemente; à medida que são apontados, deixam de ser obstáculos para se tornaresm pontos propulsores; cada revés superado abre o caminho do jogador no tabuleiro e na vida.

Quando cai na casa do Flash Intuitivo, é facultado ao jogador escolher o que deseja fazer, seja para si mesmo ou para os outros participantes. Após a escolha, ele lança uma moeda e, através do sistema “cara/coroa”, verifica se sua intuição estava “afinada”: em caso positivo, vale aquilo que ele determinou, caso contrário tudo continua como está. Já a jogada da casa do Livre Arbítrio confere plenos poderes ao jogador: ele toma sua decisão, movimenta-se no tabuleiro e só depois confirma se ela era acertada ou não, usando as cartas do baralho do Feedback Universal; a mensagem obtida serve apenas para apontar as consequências de seu ato em relação ao seu próprio destino (e ao dos colegas, caso a decisão envolva também os outros participantes). O intuito dessa jogada é enfatizar que sempre que se usa o livre-arbítrio, esteja certa ou não a decisão tomada, essa atitude traz consequências na vida da pessoa e também na dos outros. Por exemplo, se alguém abandona seus afazeres cotidianos em busca de autoconhecimento, pode crescer interiormente, mas cria dificuldades financeiras para a família, que sofrerá consequências por esse ato; isso não significa que a escolha foi errada, apenas convém preparar-se para lidar com os problemas criados.

A julgar pela riqueza arquetípica e o importante papel da sincronicidade no andamento do jogo, além do lançamento da moeda que nos sugere uma certa influência do I Ching, perguntamos a Mary se o pensamento junguiano serviu de base para a sua criação. Ela reconhece a presença dessses elementos, mas reafirma que a base se encontra mesmo nas experiências de Findhorn. “A comunidade é uma síntese de muitos caminhos, tanto psicológicos como espirituais e filosóficos, focalizando principalmente a unidade, o aspecto holístico das pessoas na comunidade e na Terra. Além da teoria junguiana, estão integrados elementos de psicossíntese, de psicologia interativa, reunindo até mesmo certas características de terapias corporais, de gestalt-terapia, do xamanismo.”

Comentamos com Mary sobre nossas dificuldades pessoais em passar do nível físico para o emocional quando participamos do jogo, e sugerimos que talvez fosse mais lógico trabalhar na ordem Físico/mental/emocional/espiritual. “Se você quiser, posso até suprimir o seu nível emocional, para facilitar”, responde ela de forma bem humorada. É claro que nossas deficiências pessoais não podem alterar as regras do jogo… Ademais, pela explicação dada por Mary, a ordem estabelecida tem uma boa razão de ser.

O nível espiritual está “lá em cima” e é o mais abstrato de todos. Muitas pessoas procuram Findhorn com a ideia que devem “incorporar” o lado espiritual, pois, de tão abstrato, muitas vezes não conseguem percebê-lo. A maneira de se começar a dar forma ao espírito, é através do nível mental. Teoricamente, este pode até ser subdividido em mental superior, que é o que vai dar forma aos impulsos espirituais, e em mental concreto, que lida com nossa capacidade de organização segundo nossos sistemas de crenças. Adentrando um pouco mais em nós mesmos, entram em cena as emoções, o nível dos relacionamentos. Interiorizando mais ainda, as emoções começam a se achegar às crenças e, só então, fazem contato com o nível físico, o qual serve para aterrar o que até então não tinha forma concreta.

É importante entender que o processo da formação do ser humano se dá, de acordo com a visão de Mary, ao contrário do que estamos acostumados a pensar, que é exatamente a ordem apresentada no jogo. A grande dificuldade do ser humano consiste em saber que ele tem um corpo, mas não é o corpo; tem sentimentos, emoções, mas não é as emoções; tem pensamentos, mas não é os pensamentos; tem um espírito, mas não é o espírito. O ser humano é, sim, a integração de todos esses níveis, e nisso residem as dificuldades com as quais nos defrontamos na busca da unidade.

O Jogo da Transformação é destinado a adultos e pode ser jogado por duas a quatro pessoas, com ou sem um facilitador treinado. O papel do facilitador seria o de tornar o jogo mais dinâmico, visto ele ser um profundo conhecedor da regras e também um mediador no caso de dúvidas. A visita de Mary ao Brasil objetivou principalmente a formação de facilitadores, embora aqui já existissem alguns formados em Findhorn. A primeira turma contou com sete pessoas de diferentes áreas de conhecimento: educação física, psicologia, idiomas, administração, relações públicas e duas representantes da Comunidade de Nazaré Paulista. Uma das facilitadoras recém formadas, Ruth Cunha Cintra, sócia do Centro de Estudos TRIOM, contou que o treinamento (em inglês) foi exaustivo, 15 dias de práticas e trabalhos de autoconhecimento e aperfeiçoamento, mexendo bem fundo nos sistemas de crenças pessoais. Após a maratona, ela, que já havia facilitado o jogo diversas vezes sem a preparação específica, pôde perceber as mudanças em seu próprio comportamento como orientadora; a mais evidente foi a de não intervir diretamente nas interpretações que cada jogador pode abstrair das mensagens recebidas através das cartas.

Embora possa ser usado como complemento de variados tipos de terapias, ou de forma lúdica sem qualquer ônus financeiro (basta ter o jogo), Mary observa que os facilitadores credenciados estão autorizados a cobrar pelo seu trabalho, caso grupos estejam interessados em ter esse apoio especializado para tornar o jogo mais rico em detalhes. Nessas partidas orientadas, é feito um trabalho dirigido à maior interiorização dos elementos do jogo. Mary não recomenda, porém, que pessoas não credenciadas cobrem pela prática.

Não há também um número predeterminado ou uma frequência em relação aos jogos; segundo Mary, há grupos que jogam todo fim de semana, continuando a mesma partida (por exemplo, determina-se um horário e encerra-se naquele dia, não importando em que nível esteja cada participante, posto que continuará na semana seguinte); outros jogam toda vez que se propõe um novo objetivo; outros a cada três meses e assim por diante. O jogo tem sido usado também em empresas como elemento de integração entre participantes de uma mesma equipe que se proponham a uma meta única, ou que queiram desenvolver alguma habilidade específica visando um maior rendimento, por exemplo.

Disponível em francês, alemão, inglês e, em breve, em português, o Jogo da Transformação ganhou o mundo, tendo sido introduzido na Holanda, Escócia, Alemanha, Estados Unidos, Argentina, Austrália e Nova Zelândia; o lançamento no Brasil está previsto para ocorrer entre os meses de maio e junho (de 1994).

Quem busca ampliar seus caminhos rumo ao autoconhecimento, pode dispor também deste agradável, simples e lúdico instrumento, reproduzindo no pequeno tabuleiro de 60 cm2 suas emoções, suas dificuldades, e novas ideias inspiradas para velhos – e às vezes desconhecidos – problemas. Aprender a jogar, a exemplo da música de Guilherme Arantes, pode ser a mais importante, fácil e deliciosa maneira de viver.