Abraham J. Heschel

“Nesta obra de Heschel, introdução ao pensamento de maturidade do autor, encontram-se os fundamentos para reflexão da ética sob o enfoque da filosofia da religião que considera o pensamento situacional, o sujeito da experiência no contexto existencial. O autor convida a um percurso pelo texto sagrado, numa perspectiva que tem por base a Torá para reflexão e entendimento da complexidade dos meandros que constituem a alma humana em busca de sentido.” – Glória Hazan, na introdução da edição brasileira.

14 x 21 cm / 166 pg / ISBN 978-85-85464-77-6

Trechos do livro:

Vivemos aquilo que somos ou aquilo que temos, ou em função daquilo que possuímos? Nossa dificuldade é que sabemos muito pouco a respeito da natureza do ser humano. Sabemos o que o homem faz, mas não sabemos o que ele é. Na caracterização do homem, por exemplo, como um inventor de ferramentas ou um animal pensante, fazemos referência às suas funções, não ao seu ser. Seria concebível pensar que toda a nossa civilização esteja baseada em uma interpretação errônea a respeito do homem? Ou será que a tragédia do homem moderno se deve ao fato de que ele é um ser que esqueceu a questão: “quem é o homem?”. O erro na própria identificação, de saber o que é a autêntica existência humana, leva o homem a assumir uma falsa identidade, a fingir ser aquilo que ele é incapaz de ser ou não conseguir aceitar o que está na raiz do seu ser. A ignorância a respeito do homem não é falta de conhecimento, mas sim conhecimento falso.

Em inglês, dizer que uma pessoa tem “presença” é uma expressão difícil de definir. Existem pessoas cujo ser essencial é sentido de vez em quando, mesmo que não se manifestem em ações e fala. Elas têm “presença”. Outras pessoas podem estar aqui todo tempo, sem que ninguém perceba sua presença. Dizemos que tem presença uma pessoa cujo exterior comunica algo de seu poder ou grandeza interior, cuja alma é irradiante e se expressa sem palavras.

O fracasso de nossa cultura está em reivindicar muito pouco do indivíduo, em não entender a correlação entre direitos e obrigações, em não perceber que existem obrigações inalienáveis da mesma maneira que existem direitos inalienáveis. Nossa civilização oferece conforto em abundância e pede muito pouco em retorno. A nossa educação é, essencialmente, uma educação do “sim”; há pouco treinamento na arte de dizer “não” a si próprio.

Ser humano é uma condição muito precária. Não é uma substância, é uma presença, um murmúrio chamando na natureza intocada. O homem tem dificuldade para ouvir interiormente, mas tem olhos agudos e ávidos. O poder que ele libera sobrepuja o que ele é, deixando-o encantado. Ele tem a capacidade da extravagância, da suntuosidade, da presunção. Seu poder é explosivo. O ser humano não tem limites, mas ser humano implica em respeito pelos limites. A situação humana pode ser caracterizada como uma polaridade entre o ser humano e a condição de ser humano.

O segredo da vida espiritual é o poder de louvar. Louvar é a colheita do amor. O louvor precede a fé. Primeiro cantamos, depois acreditamos. O tema fundamental não é a fé, mas a sensibilidade e o louvor, estar pronto para a fé.

O homem pode esquecer seu senso do inefável. Estar vivo é um lugar comum; o senso do espanto radical desapareceu; o mundo é familiar, e a familiaridade não gera exaltação, nem mesmo apreciação. Desprovido da capacidade de louvar, o homem moderno é forçado a buscar entretenimento, que está se tornando compulsório.

Deus leva o homem a sério. Ele tem uma relação direta com o homem, isto é, um pacto, com o qual o homem e Deus estão comprometidos. O homem bíblico, em seu supremo confronto e em suas crises, conhece não só a eterna misericórdia e justiça de Deus, mas também o compromisso de Deus com o homem. Neste fato sublime está o significado da história e da glória do destino humano.

Para a religião bíblica é essencial a percepção do interesse de Deus no homem, a percepção de um pacto, de uma responsabilidade que é Dele, mas nossa também. Nossa tarefa é ir ao encontro do interesse Dele, realizar a Sua visão de nossa tarefa. Deus necessita do homem para alcançar Seus objetivos, e a religião, como a tradição bíblica a entende, é uma maneira de servir esse objetivo, do qual necessitamos, mesmo se não estivermos conscientes do mesmo, objetivo esse do qual precisamos sentir a necessidade.

A vida é uma sociedade entre Deus e o homem; Deus não está distanciado nem indiferente a nossas alegrias e tristezas. As necessidades vitais e autênticas do corpo e da alma do homem são uma preocupação divina. Eis porque a vida humana é sagrada. Deus é um sócio e um companheiro na luta do homem por justiça, paz, amor e beleza, e é porque precisa do homem que Ele fez um pacto com este para todo o sempre, um laço mútuo que envolve Deus e o homem, uma relação com a qual Deus, e não só o homem, está comprometido.

A própria existência do homem devora toda transcendência. Em vez de encarar a grandeza do cosmo, ele perde tempo tentando explicá-lo; em vez de se maravilhar, ele tira uma foto; em vez de ouvir uma voz, ela a grava. Ele não enxerga o que lhe seria possível ver.

O conhecimento é patrocinado pela curiosidade, a sabedoria pelo encantamento.

O encantamento precede a fé, é a sua raiz. Devemos nos deixar guiar pelo encantamento para sentirmos o valor da fé.

O autêntico indivíduo não é nem um fim nem um começo, mas um elo entre gerações, suas memórias e expectativas. Cada momento é um novo começo dentro de um contínuo da história. É um engano segregar um momento e não sentir seu envolvimento tanto com o passado quanto com o futuro. O passado humildemente dá deferência ao futuro, mas recusa-se a ser descartado. Somente quem é herdeiro de alguma coisa se qualifica para ser um pioneiro.

O primeiro pensamento que uma criança tem é de estar sendo chamada, seu ser solicitado a responder ou a agir de uma certa maneira. É nos atos de responder a solicitações feitas a ela que a criança começa a achar-se como parte tanto da sociedade quanto da natureza. Sem a percepção de uma tarefa a ser cumprida, de uma tarefa que o espere, o homem se vê como um pária. O conteúdo da tarefa nós precisamos apreender, a busca da tarefa é dada com consciência.

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